Por Pablo Xol (Maya Q'eqchi', equipe de CS)
Narrativas artísticas convencionais frequentemente se restringem a galerias imaculadas e centros urbanos, relegando as profundas criações dos territórios indígenas a meros "artesanato". É nesse contexto de preconceito e apropriação cultural que Bepbere Pat-i Kayapó (Mẽbêngôkre Kayapó), artista do Território Indígena do Sul do Pará, Brasil, trilhou um caminho resiliente.
Como criador multimídia que trabalha com artesanato tradicional em miçangas, cocares, pintura corporal e produção audiovisual, e como membro da Associação Indígena Pykôre, um coletivo formado principalmente por mulheres, Bepbere utiliza a narrativa e o arquivamento para conectar gerações. Recusando-se a permitir que a história de seu povo seja apagada ou distorcida por invasões de terras, mineração ilegal e pressões externas, seu trabalho reivindica um espaço de total pertencimento e memória.
Para ele, a verdadeira resistência não reside nos espetáculos comerciais, mas nos atos cotidianos de sobrevivência: reunir-se com os anciãos para aprender o conhecimento ancestral, proteger as florestas e os rios e criar um arquivo para lembrar às gerações mais jovens que sua cultura não está à venda, mas sim é uma salvaguarda vital para o seu futuro.
A Cultural Survival conversou recentemente com Bepbere Pat-i Kayapó.
Cultural Survival : Como é o seu processo de criação? Como você escolhe ou reúne os materiais que utiliza no seu trabalho? O que esses materiais representam para você?
Bepbere Pat-i Kayapó: Às vezes, quando tenho trabalho, eu mesmo me organizo para criar o processo. Eu faço uma pasta para colocar minhas fotos e vídeos. É assim que eu faço.
Os materiais são muito importantes para mim porque, quando faço um filme de história ou registro a fala de um ancião ou de uma anciã, eu guardo para o futuro. Também uso com frequência miçangas, pintura, cocar, celular, vídeo e foto. Para mim, esses materiais ajudam a mostrar nossa cultura, nossa memória e nossa forma de viver.

CS: Como você começou a criar arte? Como tem sido a sua trajetória como artista e o que faz o seu trabalho se destacar dos demais?
BPK: Eu comecei a criar arte vendo outras pessoas fazerem. Eu vi e comecei a fazer também.
Minha trajetória como artista tem sido construída a partir de vivências, identidade e compromisso com aquilo que eu represento. Cada passo que dou carrega não só aprendizado, mas também a responsabilidade de expressar histórias, culturas e lutas que muitas vezes não são ouvidas.
Ao longo do tempo, fui desenvolvendo meu estilo com base nas minhas origens, nas experiências dentro da comunidade e no contato com diferentes formas de arte. O que faz o meu trabalho se destacar é justamente essa conexão verdadeira com a minha essência. Não é apenas sobre estética, mas sobre mensagem. Meu trabalho carrega identidade, tem propósito e fala diretamente com quem entende e também com quem precisa conhecer essa realidade.
Busco valorizar a cultura, fortalecer a voz do meu povo e mostrar que a arte também é uma forma de resistência.
CS: Você pode me dar um exemplo específico de uma obra, filme, foto, artesanato ou projeto que seja muito importante para você? Por que esse trabalho é especial?
BPK: Tem um cesto usado para carregar lenha, mandioca e outras coisas. Esse trabalho é importante porque faz parte da vida da comunidade e mostra o conhecimento do nosso povo. Ele não é apenas um objeto: ele carrega a utilidade do dia a dia, a memória e a forma como a comunidade mantém seus saberes.
CS: Quando você fala que guarda fotos, vídeos e falas dos anciãos para o futuro, o que você espera que os jovens aprendam com esses registros?
BPK: Espero que os jovens procurem esses registros para ver as fotos e os vídeos, conhecer melhor nossa história e aprender com aquilo que foi guardado. Esses registros ajudam os jovens a ver, conhecer e lembrar a cultura, as falas e os ensinamentos dos mais velhos.
CS: Quais desafios você enfrenta como artista Indígena?
BPK:
Ser artista Indígena hoje envolve muita força, mas também muitos desafios. Entre os principais estão a falta de valorização e reconhecimento, pois muitas vezes a arte Indígena ainda é vista como “artesanato simples”, e não como uma expressão artística rica, com história, significado e identidade, o que dificulta o reconhecimento justo do trabalho. Outro desafio é a apropriação cultural, quando pessoas de fora usam símbolos, grafismos e elementos culturais Indígenas sem entender ou respeitar seu significado, podendo desvalorizar e até distorcer a cultura. Também existe o acesso limitado a espaços e oportunidades, já que exposições, galerias, editais e eventos culturais nem sempre incluem ou facilitam a participação de artistas Indígenas, principalmente aqueles que vivem em territórios mais afastados. As dificuldades econômicas também são uma realidade, pois viver da arte pode ser difícil, e muitas vezes o artista não recebe um preço justo pelo seu trabalho ou enfrenta obstáculos para vender e divulgar suas produções. Além disso, o preconceito e a invisibilidade continuam presentes, fazendo com que muitos artistas Indígenas precisem lutar para serem ouvidos e respeitados dentro e fora de suas comunidades. Há ainda o desafio de manter a tradição e dialogar com o mundo atual, preservando a cultura, os saberes e as raízes, ao mesmo tempo em que se adaptam a novas formas de expressão, como redes sociais e arte contemporânea. Apesar de tudo isso, a arte Indígena é resistência: é uma forma de manter viva a cultura, contar histórias, fortalecer o povo e mostrar ao mundo que os povos Indígenas seguem vivos, criando e ensinando.

CS: Qual é a importância do artesanato e da expressão artística para a sua cultura e para a sua comunidade?
BPK: O artesanato e a expressão artística têm uma importância muito profunda para a cultura e para a comunidade, especialmente para povos Indígenas como o povo Kayapó/Mebêngôkre.
Primeiro, o artesanato é uma forma de manter viva a tradição. Cada peça — como colares, pinturas corporais, cocares ou cestarias — carrega conhecimentos que passam de geração em geração. Não é só um objeto bonito: é história, é identidade e é memória do povo.
Além disso, a arte é uma forma de expressão cultural. Através dos desenhos, cores e formas, a comunidade mostra sua relação com a natureza, com os espíritos, com os animais e com o território. É uma linguagem própria, que comunica quem somos e como vemos o mundo.
Também tem um papel importante na união da comunidade. Muitas vezes, o artesanato é feito coletivamente, envolvendo famílias, jovens e anciãos. Nesse processo, os mais velhos ensinam e os mais novos aprendem, fortalecendo o respeito e o vínculo entre as gerações.
Outro ponto é a valorização e a resistência cultural. Em um mundo onde muitas culturas Indígenas são ameaçadas, o artesanato e a arte ajudam a afirmar: “nós existimos, nossa cultura é forte e não está à venda no sentido de perder sua essência”. É uma forma de luta e de afirmação.
E também pode gerar renda para a comunidade de forma sustentável, sem destruir a floresta. Isso ajuda na autonomia das famílias, mantendo a cultura viva ao mesmo tempo.
CS: Quais desafios os povos Indígenas enfrentam atualmente no seu país?
BPK: No Brasil, os povos Indígenas enfrentam vários desafios atualmente. Esses problemas são antigos, mas continuam acontecendo hoje, principalmente na região amazônica. Entre os principais desafios estão a invasão de terras e o garimpo ilegal, já que muitas terras Indígenas sofrem invasões de garimpeiros, madeireiros e grileiros, causando destruição da floresta, contaminação dos rios, inclusive por mercúrio, e conflitos com as comunidades. Outro problema importante é a demarcação de terras, que, apesar de ser um direito garantido pela Constituição, ainda ocorre de forma lenta, deixando muitas áreas sem regularização, o que aumenta a vulnerabilidade dos povos Indígenas e gera conflitos. As mudanças climáticas também afetam diretamente a vida nas aldeias, dificultando a caça, a pesca e o plantio, além de provocar perda de biodiversidade. Além disso, muitas lideranças Indígenas sofrem violência e ameaças por defenderem seus territórios, especialmente em contextos ligados a disputas por terra e exploração ilegal. A falta de acesso adequado à saúde e à educação também continua sendo um grande desafio, principalmente em comunidades localizadas em regiões isoladas, afetando diretamente a qualidade de vida. Soma-se a isso o preconceito e a exclusão social, pois os povos Indígenas ainda enfrentam discriminação, invisibilidade e dificuldades para que seus direitos sejam plenamente respeitados na sociedade. Por fim, há também a perda cultural e a pressão externa, já que o avanço da sociedade não Indígena e outras influências externas podem ameaçar tradições, línguas e modos de vida.
Resumindo, os maiores desafios hoje estão ligados a defender o território, garantir direitos básicos e preservar a cultura e o meio ambiente. Mesmo com tudo isso, os povos Indígenas continuam lutando, se organizando e mostrando sua força para proteger suas terras, sua cultura e seu futuro.
CS: Onde a sua arte já foi apresentada ou exposta? Você lembra em quais festivais, palestras, feiras ou eventos sua arte já foi apresentada?
BPK:
Nossa arte foi mostrada em festivais, palestras e feiras, onde apresentamos nosso trabalho e nossa cultura. Entre os espaços mencionados estão o Círio de Nazaré, eventos na Vale, a COP30 e a feira do Bazaar.

CS: O que espaços como o CS Bazaar oferecem aos artistas Indígenas? Como eles têm ajudado — ou como poderiam ajudar mais?
BPK: Os espaços como o CS Bazaar funcionam como ambientes de visibilidade, troca e geração de renda para artistas Indígenas. Eles oferecem espaço de exposição artística, onde artistas podem apresentar suas obras, como pinturas, fotografias, artesanato, moda e biojoias, ao público. Esses eventos ajudam a tirar a arte Indígena da invisibilidade e levá-la para galerias, feiras e circuitos culturais mais amplos.
Também oferecem espaço de comercialização, permitindo que os próprios artistas vendam suas criações sem intermediários, gerando renda para suas comunidades. Além disso, são espaços de valorização cultural. Não se trata apenas de venda, mas também de afirmação cultural. Os artistas mostram suas tradições, grafismos, materiais naturais e saberes ancestrais, reforçando identidade e resistência.
Esses eventos também criam troca e diálogo, aproximando artistas Indígenas do público não Indígena e criando respeito e aprendizado sobre as culturas originárias. Participar de um bazar também pode abrir portas para novas oportunidades, como exposições em galerias, convites para eventos maiores e parcerias com marcas, designers e instituições.
O Bazaar mudou muito para mim e para a comunidade, porque a comunidade ficou muito feliz com as vendas, com os aprendizados e com os convites. Isso é importante para a comunidade, porque também permite que a gente mostre quem somos e mostre nossa cultura.
O Bazaar nos ajudou a vender alguns artesanatos e também ajudou as mulheres. Isso é muito importante para os povos Indígenas e para quem faz arte com sabedoria. Poderia ajudar mais levando, todos os anos, o artesanato das mulheres e dos homens também, e mostrando a nossa cultura. Não mostrar só o artesanato, mas também a nossa cultura. Isso é muito importante.
CS: Como a sua arte ajuda a preservar ou expressar a identidade, os conhecimentos e as tradições do seu povo?
BPK: A arte é uma forma muito forte de manter viva a identidade, os conhecimentos e as tradições de um povo. No caso dos povos Indígenas, como o povo Kayapó/Mebêngôkre, a arte não é só estética — ela carrega história, ensinamentos e espiritualidade.
Por meio das pinturas corporais, dos cantos, das danças, dos grafismos e do artesanato, a arte transmite conhecimentos que passam de geração em geração. Cada desenho tem um significado: pode representar a natureza, os animais, os espíritos ou momentos importantes da vida da comunidade. Assim, os mais jovens aprendem com os mais velhos, mantendo viva a cultura.
A arte também expressa a identidade do povo. Quando uma pessoa Indígena pinta o corpo ou usa um adorno tradicional, ela está mostrando quem é, de onde vem e a qual grupo pertence. Isso fortalece o orgulho cultural e ajuda a resistir às pressões externas que tentam apagar essas identidades.
Além disso, a arte é uma forma de luta e de comunicação com o mundo. Em eventos, encontros e mobilizações, ela mostra para outras pessoas que o povo continua vivo, com sua cultura forte, e que merece respeito. É uma maneira de dizer: “nossa cultura existe e não está à venda”.
Por fim, a arte preserva a relação com a natureza. Muitos elementos usados vêm da floresta, dos rios e dos animais, mostrando o respeito e o cuidado com o território. Assim, preservar a arte também é preservar o meio ambiente e o modo de vida do povo.
CS: O que você gostaria que as pessoas de fora da sua comunidade entendessem quando veem o seu trabalho?
BPK: O que as pessoas precisam entender é que estamos levando nossa arte e nossa cultura para mostrar fora da comunidade. Isso precisa ser entendido e respeitado. O respeito é muito importante.
As pessoas de fora também precisam entender e conhecer a arte, a cultura, a tradição e a língua. Isso é muito importante para que conheçam que os povos Indígenas ainda preservam sua tradição, suas cerimônias e tudo aquilo que fazem. Mostrar isso fora da comunidade também é muito importante.
CS: Existe alguma frase sua, na sua língua ou em português, que você gostaria de incluir no final da entrevista?
BPK : Sim. Gostaria de incluir esta frase: “Mejkumrej ija kam né inho cooperativa Mat Kre feira Bazar o já mji ri né.”
CS: Há algo mais que você gostaria de compartilhar sobre o seu trabalho, o seu povo ou a sua experiência?
BPK: Sim, há muitas coisas importantes para compartilhar sobre nosso trabalho, nosso povo e nossas experiências.
Nosso povo carrega uma história antiga, de resistência e de sabedoria. A gente aprende desde cedo a cuidar da floresta, dos rios, dos animais e da nossa cultura. Nosso trabalho não é só para hoje, mas para o futuro das próximas gerações. A terra, para nós, não é apenas um lugar — é nossa vida, nossa identidade e nossa força.
Hoje, enfrentamos muitos desafios, como invasões, garimpo, desmatamento e falta de apoio em áreas como saúde e educação. Mesmo assim, seguimos lutando, organizados através das associações Indígenas, das lideranças e dos jovens que estão aprendendo a defender nossos direitos.
Também estamos construindo caminhos novos: projetos sustentáveis, fortalecimento da cultura, educação Indígena e iniciativas que valorizam nosso modo de viver. Queremos mostrar para o mundo que existimos, que temos voz e que nossa cultura não está à venda.
Nossas experiências mostram que, quando estamos unidos — lideranças, comunidades, jovens e parceiros — conseguimos avançar. Mas ainda precisamos de respeito, escuta e apoio verdadeiro.
Nosso maior objetivo é continuar protegendo nosso território, mantendo viva nossa cultura e garantindo dignidade para o nosso povo.
